sexta-feira, 15 de julho de 2011


Com o tempo ele descobriu que apesar de morarem juntos estavam muito distantes, cada um em seu mundo bloqueado.
O silêncio era irônico à guerra que havia dentro de sí.Sentou-se a porta para observar a rua sob a chuva, sentia que isso não o completava, mas o que o completaria.Aquele vazio podia o corroer aos poucos até se tornar mais vazio que antes fora.
Ele viajara no último fim de semana, mas isso também não o completara, pelo contrario, apenas fez questão de lhe lembrar o quanto fora feliz um dia.
- Nada de viver querido, Apenas sobreviva - Disse lhe a mulher - por enquanto.

Se eu pudesse voltar no tempo eu voltaria, apagaria tantas idiotices que fiz, diria mais um pouco do essencial, olharia mais o céu e beberia mais água, inventaria mais loucuras, ficaria mais tempo olhando.

Ela seguiu seu caminho de volta para casa, mas ele continuou lá imóvel olhando até que ela se tornasse um pontinho preto no fim da rua, e ele permanecia lá, imaginando talvez que pudesse congelar aquele momento para poder saborea-lo novamente .
Pegou o ônibus, mas tentou não imaginar como seriam seus próximos dias sem suas imagens diárias, sem a paisagem familiar, sem a neblina da manhã, e sem o bom dia das flores.Imaginou tantas coisas que ainda viveria, quantas vezes iria ao cinema sozinho, quantos abraços de despedida ainda daria, quantos lugares ainda deixaria, quantos copos de água ainda beberia.
Então deitou, e dormiu, e acordou, e levantou, e pensou, e imaginou, e esperou, e fez uma decisão de última hora .A decisão era de que ele iria levar o aparelho consigo, nada mais de especial.Se pudesse levaria a casa consigo, e as pessoas, e o lugar, e a rua, e a rotina, e o barulho da manhã, a escola, o copo d'água que bebera na semana passada.E nada teria mais valor que aquele copo de água, a essa altura já digerido e descartado, como tudo que alí construira.
Feche os olhos, e talvez quando abrir esteja vivo ou ainda sinta algo.Apenas feche os olhos.

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